Maktubes de Paulo Coelho: Junho 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fidelidade

Certa vez, um aldeão e uma aldeã dormiam entorpecidos, depois de um dia de grande labuta para ambos. Um pouco antes do sol rasgar o véu negro da noite, a aldeã despertou ao ouvir um barulho que vinha da cozinha. Ainda perturbada pelo sono, acordou o varão.

_Acorda! Acorda! Deve ser meu marido chegando! _disse-lhe em tom grave.

O aldeão, temendo pelo pior, juntou seus pertences e saiu nu pela janela. Alguns minutos depois, voltou para o quarto, esbaforindo-se.

_Eu sou seu marido, esposa infiel! _bradou o homem enfurecido.

Então, a esposa aldeã, com a calma que só é permitida aos desesperados, redargüiu:

_Pois o meu marido poderia dizer-me porque pulou a janela?



Moral da estória: "Uma consciência pura ri da calúnia mentirosa." (Ovídio)


segunda-feira, 13 de junho de 2011

O mestre zen e o desafortunado

Certa vez, na margem do rio Piedra, um homem chorava sentado. Ao passar pelo local, um mestre zen compadeceu-se e foi ter com o desventurado.

_Porque choras? _perguntou-lhe.
_Então não percebes que sou um malsucedido? Minha esposa trocou-me por um jovem da aldeia, deixando-me na solidão. Como se isso não fosse o suficiente, a chuva arrasou toda a lavoura, tornando-me endividado. Logo cedo, tomaram-me a casa e também as cabras para cobrir minhas dívidas. Agora sou um solitário miserável!

Então, o mestre zen, tocando-lhe o ombro, disse-lhe com voz doce:

_Não há motivos para desespero. Lembre-se de que poderia ser bem pior!
_Como assim, mestre? _indagou o desafortunado.
_Pelo menos você não matou ninguém!

O homem ergueu-se, secou as lágrimas e entendeu que o mestre zen era sábio.


sábado, 11 de junho de 2011

As duas ladras de Masfut

Duas ladras, Husniyah e Kamilah, certa vez, fizeram uma aposta: deveriam, ao seu turno, roubar o verdureiro e ao final, decidiriam quem teria logrado melhor sorte no furto. A primeira tentativa fora de Husniyah, que retornou trazendo uma dúzia de rambutans frescas, cinco encantadoras carambolas e tantas uvas quanto pôde carregar. Kamilah, uma hora depois, retornou com uma única banana-da-terra em suas mãos.

_Venci! _bradou Husniyah. _Trouxeste apenas uma banana!

Kamilah, arrostando a oponente, tomou-lhe a palavra.

_Creio que a vitória é minha! _disse-lhe. _Veja bem: suas frutas podem apenas saciar-lhe a fome, nada mais! Com essa banana-da-terra, posso satisfazer-me sexualmente e depois ainda tratar do estômago!

Husniyah, então, entendeu que a amiga era sábia.

Moral da estória: "Com um palito, você pode limpar os dentes e também furar o olho do inimigo".


A dor de um pai

Voltando para casa, o filho foi ter com o seu pai. Este, vendo que seu rebento estava coberto de arranhões e hematomas, perguntou o que havia acontecido.

_Eu briguei na escola. _disse-lhe o filho, humildemente.
_Bateu ou apanhou?_indagou-lhe o pai, curioso.
_Apanhei.
_Pois então receberá de mim outra surra, para que quando fores se meter em contendas, lembre-se que só vale a pena se for para vencer.

Então, como havia dito, o pai surrou o filho e este compreendeu a lição. Vinte anos mais tarde, vinte vezes mais forte e vinte vezes mais rico, o menino tornara-se Campeão Mundial de Boxe, categoria “Meio-Pesado”.

Moral da Estória: "Quando fores se meter em contendas, lembre-se que só vale a pena se for para vencer".



quarta-feira, 8 de junho de 2011

O mestre zen, o aldeão e a égua

Maktub, por Paulo Coelho

Certa vez, necessitando de conselhos, um aldeão procurou o homem mais sábio que conhecia e foi bater à porta do templo, lar de um venerável mestre zen. Quando colocado diante deste, o aldeão apressou-se a falar.

_Mestre, todas as mulheres da nossa aldeia já estão casadas e as poucas solteiras são muito jovens para o matrimônio. Como posso satisfazer as minhas necessidades sexuais de forma adequada, visto que o prazer solitário já não me completa? Enfim, onde posso encontrar uma mulher?

Então, o velho sábio falou-lhe, muito pausadamente:

_Vá até a floresta, meu filho...
_Sim, mestre! _Interrompeu-lhe o aldeão. _Muito obrigado!
_Espere, não terminei! No meio da floresta há um riacho e perto das margens, uma pequena cabana. Ali reside uma mulher...
_Obrigado, mestre! Não sei como lhe agradecer pelo conselho!
_Espere! Essa mulher não poderá saciar vossos desejos, pois é nonagenária...
_Mas, então, porque motivo devo procurá-la? _perguntou o homem, decepcionado.
_Ela tem uma égua, meu filho...
_Obrigado, mestre! Não era bem o que eu queria, mas já serve! 

O aldeão tomou seu rumo e foi procurar a velha que vivia em uma cabana, no meio da floresta, perto do riacho. Ao chegar ao local, encontrou a anciã e esta indicou-lhe a estrebaria, onde a égua estaria pastando. Com a mão direita estendida, indicou-lhe que o pagamento era adiantado.



Quase seis meses depois, o aldeão voltou ao templo para aconselhar-se novamente com o mestre zen.

_Mestre, não quero que me entenda mal, a égua até que tem seus encantos e dela me sirvo há quase meio ano, mas o que eu preciso mesmo, é de uma mulher!
_Então, meu filho. Como eu estava tentando lhe dizer da outra vez, quando encontrares a cabana no meio da floresta, junto às margens do riacho, fale com a velha senhora e diga-lhe que quer alugar a égua. Feito isso, monte no animal, cruze o riacho e cavalgue até a aldeia vizinha. Lá você vai encontrar um bordel, onde, tenho certeza, poderá aliviar-se com as meretrizes.

Moral da estória: “Escute sempre os mais velhos, sem interrompê-los”.